Etiqueta

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“Tudo começa e tudo acaba com um cerimonial”

Georges Stobbaerts, Hanshi 8ºDan Aikido DNBK

O cerimonial é realizado antes e depois da prática, em seiza (posição formal de estar sentado) pousando o shinai do nosso lado esquerdo e o restante equipamento do lado direito. As vozes são dadas pelo sempai (aluno mais velho do dojo).

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O cerimonial é constituído pelas seguintes partes:

1. Ki o Tsuke
2. Mokuso
3. Yamé
4. Shomen Nirei
5. Sensei Nirei
6. Otaga Nirei
7. Kiritsu

1. Ki o Tsuke – “Atenção ao vosso Ki”

Ki é geralmente entendido como a energia primitiva dos corpos mas neste caso Ki o Tsuke deve ser interpretado no sentido de conter a energia do nosso corpo num determinado estado. A esta voz pretende-se então que todos adoptem uma postura formal e atenta, com um elevado nível de concentração, procurando estabilizar a respiração, verticalizando não só o corpo mas também o espírito. A postura não deve ser no entanto rígida ou forçada. É fundamental adoptar um estado de Zanshin (“manter o espírito” poderá ser traduzido neste caso como vigilância ou um estado interior em que a nossa concentração permite estar atento a tudo o que nos rodeia ao mesmo tempo)

2. Mokuso

A esta coloca-se a mão direita sobre a esquerda, com as palmas viradas para cima, tocando os polegares (posição de mãos vulgar na meditação zazen). Segue-se um momento de silêncio e reflexão que não deve ser no entanto confundido com alguma espécie de meditação transcendental. Aquilo que se pretende é tão só acalmar as flutuações mentais, tomando a consciência da nós mesmos, libertando a mente de pensamentos que iriam prejudicar a prática que se segue.

3. Yamé – “Parar”

Parar mokuso e voltar à postura anteriormente assumida com Ki o Tsuke.

4. Shomen Nirei – “Saudar face ao que está diante de si”

Esta saudação é feita no sentido de interiorizar o facto de que há coisas maiores que nós, tendo em atenção que o budoca não deve desprezar nunca nem o grande nem o pequeno. “Para nos inclinarmos perante algo que nos excede é necessário uma compaixão ilimitada para com os seres e uma percepção da Natureza Última das coisas” escreve-nos o mestre Georges Stobbaerts. A um nível mais terreno, entende-se que se deve saudar o Kamiza (altar) do Dojo pela simbologia sagrada inerente ao dito.

5. Sensei Nirei

À letra sensei significa “Aquele que nasceu antes” embora neste caso se denomine por sensei todo aquele que consagrou a sua vida à procura da arte. A saudação ao sensei procura ilustrar o respeito que os praticantes da via têm por aquele que, chegado antes, acede a partilhar o seu conhecimento sobre a mesma. (apenas os alunos fazem a saudação)

6. Otaga Nirei

“Otaga significa a unidade conjunta e o respeito mútuo. O Dojo é, acima de tudo, um espaço comunitário. Estamos todos solidários. Nada podemos, verdadeiramente, realizar uns sem os outros.” recorda-nos o mestre Georges Stobbaerts. Por isto a terceira saudação desta lista é destinada a agradecer entre todos o facto de ali estarem, prontos a praticar em conjunto. (todos fazem a saudação)

7. Kiritsu – “Levantar-se com rectidão”

Desde o acto de se sentar em seiza até ao levantar-se tudo faz parte do cerimonial. Inazo Nitobe diz-nos “A rectidão é este osso que nos mantém firmes e direitos. Sem o osso, nem a cabeça se mantém no cimo da coluna vertebral nem as mão se podem mexer, nem os pés nos conseguem manter de pé. Sem a rectidão nenhum talento, nenhum saber pode fazer de um corpo humano um verdadeiro budoka”.

Após este cerimonial dá-se início à prática.

A noção de etiqueta não se resume no entanto ao cerimonial no início e final do treino. Georges Stobbaerts recorda-nos que dentro do Dojo é indispensável cumprir com as seguintes condições:

548712_365048920248402_1890394075_n1. Paciência
2. Confiança
3. Humildade
4. Flexibilidade
5. Disponibilidade

Nesta lógica é fundamental recordar a gradação que vai do principiante ao mestre tendo em atenção que os alunos mais antigos devem agir sempre como retransmissores do que receberam. Quando alguém explica alguma coisa exige-se por isso a total atenção.

Ao entrar no dojo deve-se executar Ritsu Rei, a saudação de pé (vénia). Executa-se partindo de Shizei hontai (postura natural de pé, com as pontas dos pés ligeiramente afastadas), inclinando o busto cerca de 30º para a frente, sem dobrar o pescoço. Esta é também a saudação que se deve utilizar quando se inicia a prática de um exercício com alguém.

Quando se chega atrasado é habitual que se prepare todo o equipamento, evitando perturbar a aula. Em seguida o aluno deve aguardar ser chamado pelo professor, ocupando o seu lugar rapidamente, sem prejudicar o funcionamento da aula.

Antes de iniciar a prática é habitual fazer um aquecimento em conjunto para prevenir lesões. Ao dar início e ao terminar a prática é habitual fazer a saudação – sonkyo. Sonkyo é uma saudação formal com o sabre. Partindo de Shizei hontai com o shinai “embainhado” faz-se ritsu rei. Em seguida, dão-se 3 passos em direcção ao parceiro, “desembainhando” o shinai no último, assumindo a guarda chudan-no-kamae, sem cruzar os shinai (to-maai) numa posição baixa, flectindo os joelhos. Nesta posição fica-se por cerca de meio segundo, regressando-se depois à guarda Chudan-no-Kamae.

Notas sobre o Trajo

Vestir o Do-gi é também parte da etiqueta. O traje deve ser vestido conscientemente e não por um automatismo. O hakama deve ser envergado enfiando primeiro a perna direita e o keiko-gi a manga direita. A aba esquerda do keiko-gi deve ficar por cima da direita pois ao contrário significaria luto. Para além disto antigamente isto facilitava o transporte dos dois sabres sobre a anca esquerda e o acesso a alguns pertences que estariam dentro do casaco como por exemplo o dinheiro ou um tanto (punhal). Sugere-se uma visita à secção Equipamento.

Notas sobre a aplicação prática do cerimonial no Dojo de Leiria

Por norma, nas aulas regulares as saudações Shomen Nirei e Sensei Nirei não são utilizadas. A justificação é simples: as aulas decorrem num pavilhão e não num Dojo tradicional. Para além disto não é habitual a presença de uma individualidade que se designe como Sensei.

Texto baseado nos livros

“Reigi” de Georges Stobbaerts (Hanshi 8ºDan DNBK)

“The Japanese Fighting Arts – Karate, Aikido, Kendo, Judo” de vários autores (Capítulo sobre Kendo por Tommy Otani)

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